O que é o tsunami meteorológico que atingiu cidades do Sul do Brasil
Perturbações na pressão atmosférica e rajadas de vento elevam o nível do mar rapidamente sem qualquer relação com terremotos submarinos
Um raro tsunami meteorológico causado por mudanças na pressão atmosférica e ventos intensos atingiu o litoral do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, avançando sobre áreas costeiras e causando danos materiais, sem deixar feridos.
Fênomeno raro, o tsunami meteorológico é uma grande onda oceânica provocada por alterações bruscas na pressão atmosférica e ventos intensos, sem relação com terremotos. O evento atingiu o litoral do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina nesta segunda-feira (21), provocando o avanço repentino do mar sobre faixas de areia, vias públicas e construções costeiras.
Segundo a Defesa Civil de Santa Catarina, a formação decorre do deslocamento de uma linha de instabilidade com tempestades alinhadas paralelamente à costa. Quando rajadas entre 60 km/h e 90 km/h se combinam com variações de pressão, pulsos transferem energia para a plataforma continental.
De acordo com dados da Epagri/Ciram, enquanto as ondas comuns de praia possuem intervalos de 4 a 20 segundos, as oscilações geradas pelo meteotsunami têm períodos que chegam a dezenas de minutos. O recuo expressivo da água do mar funciona como o principal sinal de aproximação desse tipo de onda.
Na madrugada da segunda-feira, a MetSul Meteorologia registrou o fenômeno em Capão da Canoa, danificando quiosques na orla gaúcha. Horas depois, a água atingiu a Praia do Cardoso e o Farol de Santa Marta, em Laguna, além dos municípios de Jaguaruna e Imbituba, onde muros foram derrubados e barcos de pesca acabaram deslocados sem deixar vítimas feridas.
Como a atmosfera gera essas ondas no mar?
Em 2024, o meteorologista Caio Guerra explicou ao Terra: “Quando há uma ressonância quase perfeita entre a velocidade da linha de instabilidade e das ondas no oceano, o efeito é intensificado, causando um avanço súbito do mar”.
O processo ocorre por meio de um mecanismo físico conhecido como ressonância entre ar e oceano. A perturbação precisa se deslocar na mesma velocidade de propagação da lâmina de água marinha, fazendo a oscilação ganhar altura à medida que se aproxima da praia.
Conforme relatórios técnicos da Defesa Civil estadual, a inclinação do relevo submarino e a ausência de dunas costeiras amplificam o alcance do avanço das águas sobre o continente.
Qual é o papel do El Niño nessas variações?
O El Niño favorece oscilações rápidas na pressão atmosférica sobre o Cone Sul. O aquecimento anômalo das águas equatoriais do Oceano Pacífico intensifica o fluxo de frentes frias e tempestades severas na região meridional brasileira.
Apesar de criar um cenário dinâmico mais propenso a distúrbios, a ocorrência do meteotsunami permanece de difícil previsibilidade exata por exigir sincronia perfeita de vento, relevo e velocidade de propagação.
Com que frequência o evento acontece no litoral brasileiro?
Registros históricos compilados pela Universidade Federal do Rio Grande identificaram sete episódios semelhantes entre 2009 e 2021 nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Ocorrências prévias foram mapeadas no Cassino, Pântano do Sul, Mostardas e na própria Praia do Cardoso em novembro de 2023.
Após a passagem do sistema de instabilidade em setembro de 2026, a entrada de uma massa de ar frio e seco afasta o risco de novos eventos imediatos na costa catarinense, mantendo apenas a Marinha do Brasil sob alerta de ressaca convencional com ondas de 2,5 a 3 metros.
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